CRÔNICA

Carlinhos, o vendedor de ovos

Dom Pedro R.EJosé Conti, Bispo de Macapá

Carlinhos ganhava a vida vendendo ovos. Tinha aprendido o serviço com o pai e estava orgulhoso do seu trabalho. Fora do pequeno comércio dele estava escrito em letras vermelhas bem grandes: OVOS. Certo dia, uma certa pessoa entrou para dizer-lhe:

– Carlinhos, adivinha o que eu tenho na mão.

Carlinhos aceitou a brincadeira e respondeu:

– Me dê ao menos uma pista para eu poder adivinhar.

– Vou te dar mais de uma: eu tenho na mão algo que tem as aparências de um ovo, tem o gosto e o cheiro de um ovo. Tem a forma de um ovo e as medidas de um ovo. Dentro é branco e amarelo, é liquido antes de ficar cozido, mas fica mais consistente com o calor…

– Não precisa dizer mais nada; já entendi – falou Carlinhos abrindo um largo sorriso – deve ser algum tipo de doce!

Podemos rir ou chorar do pobre vendedor de ovos. No entanto podemos querer saber se o que aquela pessoa tinha na mão era de verdade um ovo. Deixando a brincadeira de lado, devemos reconhecer a facilidade com a qual podemos enganar e ser enganados pelas palavras que usamos. Às vezes, a culpa é de quem se comunica. Se não sabe se explicar bem, fica difícil entendê-lo.

Outras vezes a culpa é nossa. Preferimos fingir não ter entendido ou entendemos somente o que nos agrada ou, pior, chegamos a distorcer as palavras do outro e a fazer-lhe dizer o que ele não disse. São os famosos mal-entendidos: às vezes verdadeiros, outras vezes, inventados, como saída de emergência.

No evangelho deste domingo, Jesus fala das suas palavras, aquelas que Pedro, um dia, chamou de “palavras de vida eterna” (cf Jo 6,68). No entanto também as palavras de Jesus podiam e podem ser mal-entendidas, distorcidas e jogadas fora. Se não tomamos cuidado podemos fazer Jesus dizer alguma coisa e depois fazer-lhe afirmar exatamente o contrário. Quantas vezes apelamos a palavras do Velho e do Novo Testamento para justificar atitudes e decisões que de cristão tem pouco ou nada. Na hora da desculpa, até a Palavra de Deus, lida do nosso jeito e a nosso favor, serve.

É neste sentido, me parece, que Jesus fala de dar ouvido e guardar as suas palavras com amor. Precisa do amor em primeiro lugar para estarmos abertos a escutar o que o outro tem para nos dizer. Amor é atenção, disponibilidade, acolhida. O amor sincero procura entender, não julgar, não se deixa enganar pelos pré-conceitos.

O amor confia nas palavras do outro e as considera preciosas, por isso elas devem ser guardadas para poder ser lembradas na hora certa, para tornar o outro presente através das suas palavras. São as lembranças; a memória de quem amamos.

Mas tem outra razão: o amor permite compreender o outro além das palavras que ele nos diz. Elas também são limitadas, nunca expressam tudo aquilo que gostaríamos dizer, sobretudo quando o que queremos dizer é tão importante, tão grande, que nenhuma palavra o poderia conter.

Multiplicar as palavras também seria inútil, nada acrescentaria. Quando duas pessoas dizem que se amam, naquela palavra está contido muito mais do ela diz. Lá está o desejo de união, está o projeto de suas vidas para que se tornem uma vida só. Lá está a partilha dos sentimentos, dos sonhos, das vitórias e das derrotas. Quando Jesus dizia a alguém que estava perdoado dos seus pecados lá estava também o amor do Pai, a festa do retorno a casa, a dignidade recuperada, o início de uma vida nova.

Somente o amor preenche o não dito. É o amor que faz lembrar muitas outras palavras, os momentos passados juntos, a alegria da comunhão e a tristeza da falta. É por isso que Jesus ensinou que também na oração não devemos multiplicar tantas palavras. O amor se cala porque não consegue mais dizer tudo o que sente. Somente contempla e ama.

Infelizmente tudo isso vale também para o mal. Quantas vezes lembramos as palavras que nos machucaram para reavivar o ódio e deixar que a amargura envenene a nossa vida.

Ao Carlinhos da história faltou esperteza, a nós, muitas vezes, falta mesmo o amor.

 

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