OPINIÃO – O GOVERNO NOS CORNOS DA LUA

No Brasil a aferição da popularidade e desempenho do presidente virou um fenômeno, qualquer que seja sua ideologia, seja conservador ou progressista, intelectual como Fernando Henrique Cardoso ou populista, como Luis Inácio da Silva.

Vem de algum tempo, introduziu-se com o marketing político e intensificou-se com a modernização da mídia, ganhou força com o surgimento da Internet, com a valorização da imagem do governante, essencial aos políticos e partidos que querem sentar praça no poder, o que não pode ser feito sem o convencimento das massas.

Nos países sérios a avaliação do governo funciona, e a sociedade reage em maior ou menor grau aos sinais vitais da boa ou  má governança. Isso aparece nas pesquisas de boa procedência. O cidadão faz questão de manter-se atualizado sobre os fatos e de se manifestar sobre a atuação do governo, sobre o que está sendo feito ou deixou de ser feito para beneficiar o conjunto da sociedade.

Não basta ler a informação ruim e indignar-se; o brasileiro precisa exercitar sua cidadania, o seu interesse por mudanças que nunca são feitas objetivando a construção de um País mais justo, mais transparente; é preciso querer a afirmação de uma classe política decente, ver, afinal de contas, a sua opinião pesar na balança.

Nada disso vai adiantar se o eleitor, o contribuinte, o homem do povo não se convencer da importância de valioso instrumento de medição, que são as pesquisas de opinião pública hoje, e fazer valer aquilo que pensa sobre o governo e os governantes que elegeu.

A jornalista Eliane Catanhêde, da Folha de São Paulo, comenta na sua coluna de hoje que a pesquisa CNI/Ibope, que deu a Dilma e seu governo 84% de aprovação no Nordeste, fôra feita em cima do Dia Internacional da Mulher, logo após anúncios de medidas eleitoralmente impactantes, como a redução no valor da conta de luz, no valor da cesta básica, seguido dos sorrisos ao lado do papa dos pobres – ‘Teria sido apenas uma coincidência?’ – comenta a jornalista.

Tanto no âmbito da pesquisa eleitoral quanto no âmbito da pesquisa que confere a popularidade dos governantes e o desempenho do governo, há controvérsia, existe desconfiança histórica quanto à veracidade das informações que, no caso de um pleito eleitoral, podem mudar o destino de um País.

Faz-se necessário então lançar um olhar incisivo sobre essa questão porque corremos o risco de produzirmos indicadores ilusórios, desassociados do sentimento do povo, como nos induzem a rotina das pesquisas invariavelmente apontando o bom desempenho do presidente mesmo que as ruas nos mostrem o contrário, mesmo que as desigualdades continuem, mesmo que o analfabetismo, o  crime e outras mazelas se constituam feridas que sangram todos os dias.

Concordamos que devemos dar um desconto aos bolsistas presos a bolsas miseráveis que só têm porta de entrada, não têm porta de saída, e que nem existiam antes de FHC e Lula, claro!

Claro que precisamos dar um desconto aos analfabetos funcionais e não funcionais numa quantidade maior que a população de muitos países; claro que temos que dar um desconto aos setores aparelhados pelo mais poderoso dos três poderes da república, o executivo ocupado por políticos desprovidos do hábito e exemplo de austeridade, mas já passou da hora de reagirmos a pantomina das pesquisas de opinião sobre o desempenho do governo no Brasil.

Por estas terras de Cabral – e é a esse fenômeno que me refiro, pode chover canivete na horta do governo, a Petrobras pode amargar prejuízos sobre prejuízos, e até afundar; a Dilma pode levar a Roma a maior comitiva do planeta e pegar com dinheiro do contribuinte sete mil reais de diária ao Hotel mais caro da Itália para ver o Papa com os amigos, que nada acontece!

Brasileiros podem morrer pela enésima vez nas encostas dos morros do Rio na esperança de alternativas que o governo não consegue tirar do papel; outros tantos podem socumbir na fila dos hospitais sucateados e o governo que tudo pode, ainda pode blindar os corruptos notórios, que nada acontece!

O presidente pode criar mais cargos para atender correligionários desempregados, pode nos impor o Renan e mais impostos em troca de rodovias assassinas, educação, saúde, segurança ruins, serviços piores que os vigentes nos piores paises da África, que nada acontece!

Nem a insegurança, nem o banho de sangue que virou rotina nas cidades brasileiras, sem reação do estado, nem as mortes violentas de dezenas de jovens a cada final de semana, nada disso muda a opinião do povo sobre o governo.

Daí é que, vira e mexe, lá vêm o Jornal Nacional alardear mais uma vez que a popularidade da presidente é ótima, e o desempenho do seu governo está lá em cima, pindurado nos cornos da lua…

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