CRÔNICA

AS MANGUEIRAS DO BARÃO

 João Silva

Fui moleque livre, jogador de bola e peteca, peladeiro da Praça da Matriz, que um dia já foi Largo de São Sebastião e hoje se chama Praça Veiga Cabral, onde passei boa parte da minha meninice.

DSC00545E que dizer da Praça Barão do Rio Branco, que antes, bem antes da criação do Território do Amapá tinha como um dos seus limites a Vila de Santa Engracia, onde, digamos, comecei a nascer, porque ali meu pai conheceu minha mãe, a mulher da sua vida?

O Largo de São Sebastião foi o começo de tudo; foi onde aconteceu a cerimônia da elevação de Macapá à categoria de vila no dia 4 de fevereiro de l758. Portanto, a catedral, o Largo, o Formigueiro, onde se fixaram as primeiras famílias, o prédio da Intendência e a fortaleza de São José, são edificações, patrimônio do chamado Centro Histórico de Macapá.

O Largo de São João virou Praça Barão do Rio Branco, que foi uma conseqüência da criação do Território do Amapá e uma das primeiras obras de Janary Nunes. Há dois séculos, era lugar de escravos trazidos da África para o trabalho de construção da Fortaleza de São José de Macapá.

Os descendentes desses negros foram ficando por ali até próximo de l943, quando uma decisão dolorosa, mas necessária, teve que ser tomada.Uma família de negros a mim muito caros,a família de José Tavares, ainda chegou a questionar a propriedade do local na justiça, mas ficou por isso.

Começou aí uma luta de resistência que mais antigos não esquecem; uma história com direito a um protesto que culminou com a migração dos negros para os campos do Laguinho.

Por exigência dos novos tempos, o Governo teve que exigir a desocupação da área para construção da residência oficial, o Grupo Escolar Barão do Rio Branco, a praça e primeiras casas destinadas aos funcionários graduados do Território do Amapá.

Os negros foram embora, mas não sem fazer a crítica devida através dos ladrões inspirados de um dos seus poetas, em “Aonde Tu Vais Rapaz”, pérola que mantém nosso Marabaixo de pé passado tanto tempo.

O lugar tem charme. O esporte ao ar livre, a bela sede dos Correios, a residência oficial, a vizinhança com o prédio do antigo fórum (sede da OAB), com o lendário prédio da escola Getúlio Vargas, que depois virou Ginásio de Macapá e hoje se chama Professor Antônio Pontes!

Ainda podemos ver algumas casas que sobraram da sanha dos administradores insensíveis e seus seguidores, coisas que ainda contribuem para ser um lugar especial, como os casais de namorados, o monumento em homenagem a Barão do Rio Branco e à velha escola onde trabalharam as primeiras alfabetizadoras do Amapá, mestras inesquecíveis…

Precisamente no meio de tanta história e boas lembranças, bem no coração da praça, que é do povo, passados tantos anos, continua intacta a demonstração de insensibilidade dos cidadãos em geral, tanto quanto daqueles que, por dever de ofício, deveriam fazer alguma coisa, lançar um olhar atencioso sobre as mangueiras da Praça Barão, doentes, pedindo socorro á quem passa.

Há anos estão elas ali: pequenas, entanguidas, estéreis! Não dão sombra, não dão fruto nem embelezam o que deveriam embelezar, como que tentando chamar a atenção da autoridade competente ou de um coração bondoso, de alguém que possa enxergar por aí algum filho de Deus cuidando dos parques e jardins da nossa cidade.

Fora as mangueiras agonizantes, a Praça Barão do Rio Branco até que foi valorizada, passa por reformas…Os jardins estão razoavelmente bem cuidados, a iluminação melhorou, mas as calçadas e as vias que a contornam, incluindo parte da Iracema Carvão Nunes que a divide ao meio, ainda reclamam cuidados, tomadas pela invasão das lanchonetes.

A propósito do amor ao lugar em que vivemos, acho que cabe uma crítica construtiva, com base na realidade que observo todo santo dia percorrendo nossas trilhas urbanas: não basta a prefeitura sair por aí “plantando” jardins, construindo canteiros, arborizando, gramando aqui e acolá, e depois desaparecer.

No verão brabo a turma da PMM some e o verde sobrevive na marra, até que chegue o temporal e único jardineiro deste pedaço, o inverno amazônico, que, enfim, molha o pé da planta, mas não poda, não trata, não protege. Nesse aspecto, falta amor à cidade, não vejo mais as mãos de fada de dona Meire Santos, tempo em que cuidava com carinho do verde da “Cidade Joia  da Amazônia” no dizer do Jota Ney, irmão e poeta do rádio.

…Ah, ia esquecendo: conte no dedo (e veja se tem tantos pra isso!), quantos espelhos d’água desapareceram dos prédios modernos construídos em Macapá, de uns tempos prá cá, quantas árvores e jardins o próprio poder público se incumbiu de destruir pra não ter trabalho de cuidar?!

 

 

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