CRÔNICA

A DESPEDIDA DA VELHA MESTRA

 João Silva

Foi embora como um passarinho nas quatorze badaladas de uma terça-feira de Nosso Senhor Jesus Cristo em meio a vigília comovente dos amigos, de ex-alunos e de gente simples do povo. Todos ali, sem arredar pé, tristes porque a velha mestra fora para sempre.

Nasci e me criei num ambiente de respeito à sabedoria dos mais antigos. Macapaenses ilustres como Zacarias Leite e Maria Souza Machado me ensinaram nessa vida que pessoas do povo são mais amigas, mais sensíveis, choram com inteira justiça os que merecem as lágrimas da sua eterna gratidão.

Precisamente o que reaprendi com a morte de Raimunda Mendes Coutinho: o povo pranteava a mestra que dedicara sua vida à educação da juventude do Amapá, mas as autoridades, os graúdos, os governantes, não; estes não apareceram, não mandaram flores, não foram aos funerais da primeira alfabetizadora do Território Federal do Amapá.

Mas o povo, reconhecido, não deixou que a educadora ilustre se fosse sem as homenagens negadas pelo poder público arrogante e insensível. Levo-a em cortejo para despedir-se nas ruas da cidade em que amara tanto quanto as crianças que ensinara a ler e escrever.

Como negar? Quando o cortejo passou diante do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, as lembranças afloraram com força e eu chorei humildemente.

Fora ali naquele templo sagrada da educação do Amapá que Raimunda Mendes Coutinho viveu os melhores anos do seu sacerdócio e eu, como qualquer menino de Macapá, frequentei o Jardim de Infância, o primário e me preparei para o exame de admissão.

Corriam esperançosos, para mim, os anos 50 quando conheci a “Professora Guita”, mulher madura, sapato alto, elegante, entre austera e doce percorrendo os corredores, salas de aula do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, consumida pela sagrada tarefa de  preparar os filhos do Amapá para um futuro melhor.

A participação de Raimunda Mendes Coutinho no esforço pela construção de uma educação de qualidade em nossa terra, vem dos primeiros anos da criação do Território Federal do Amapá, uma inspiração de Getúlio Vargas e do seu primeiro governador, Janary Gentil Nunes.

“Professora Guita” foi maior que a indiferença do poder público demonstrado durante suas exéquias; sua vida dedicada ao magistério do Amapá é um exemplo de amor à terra em que nasceu, onde jamais será esquecida.

Quantas almas meninas ela tocou e transformou pela sua convicção de mestra entregue ao magnânimo ofício de lançar luz sobre as trevas da ignorância?

Pelas mãos da velha mestra muitos viram as primeiras letras, balbuciaram as primeiras frases, subiram os primeiros degraus da sua existência, se tornaram úteis à sociedade.

Jornalistas, engenheiros, empresários, dentistas, trabalhadores, pais de família, políticos, sacerdote da igreja católica, gente que deve tudo a quem não cansava de dizer:

 – Estou aposentada e contente, mas nada me fez mais feliz na minha vida que alfabetizar uma criança pobre.

 

 

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