CRÔNICA

VIZINHOS E PEIXES DO MEU AQUÁRIO

João Silva

Eu e os meus vizinhos mais chegados estávamos decididos a fazer uma coisa que todos os vizinhos deveriam fazer: comemorar juntos a virada de ano no calçadão das suas casas, onde existe calçada, naturalmente.

A gente iria reunir para festejar o novo ano na Praça Veiga Cabral, na General  Gurjão, onde convivemos fraternalmente  algo em torno de trinta, trinta e cinco anos, por aí.

A idéia foi da Vaneide, mãe do Valber e da Vanessa, viúva do saudoso Favila, antigo funcionário da CEA, homem que trouxe para o Amapá 80% dos canais de televisão hoje em mãos de gente que certamente não gostaria de encontrar um dia em algum lugar…

E pela viúva eu ponho a mão no fogo…Pensa numa vizinha solidária, prestativa, simpática! Foi sempre assim desde quando marcou presença no pedaço em que nasci e amo de paixão, apesar de maltratado por gente que não gosta da cidade.

Pra variar, a viuva lúdica pensou numa bela sacada: adotou o Fred, um galo que canta até o sol entrar pela janela da casa da gente lembrando as madrugadas alegres e poéticas do meu tempo de menino, com um detalhe: repete a cantoria em horário sagrado para muitos amapaenses, o horário da sesta, depois do almoço, uma beleza!

Do mesmo lado dos Favilla, à direita do nº 77, vivem o dentista Luis Santos, a mulher Conceição, o filho Felipe e as filhas Brenda e Nicole guardados pelo “Pretão”, um vira-lata com status de ptbull que não deixa ninguém encostar perto da casa da família.

Eu vi os filhos do Luis Santos no cueiro, todos molequinhos: nasceram na mesma época em que nasceram meus filhos João (médico) e Lívia (universitária), jovens que partilharam a infância e boa parte da adolescência, e são amigos até hoje.

Quero declarar, portanto, que todos os meus vizinhos são peixes do meu aquário e por muitos anos também foram vizinhos dos meus pais, o velho Duca e a Dona Antonica, gente que chorou com a nossa família a morte dos dois; primeiro da minha mãe, depois  do meu pai, portanto pessoas que aprendemos a gostar e respeitar.

Pena que o encontrão tenha sido adiado, já que meus vizinhos, de última hora, decidiram passar a virada de ano com familiares em Belém, e a confrternização foi transferida para festivo 2014, ano de Copa do Mundo no Brasil, até porque a idéia surgiu muito em cima da hora, digamos assim.

Amigo que soube da idéia da festa adiada, infelizmente, queria saber por que a gente se dava também em um tipo de relação que geralmente dar problema; expliquei que não aprovamos, mas temos um código de ética que vigora, que realmente funciona!

Discrição, respeito ao sossego alheio, visita pouca, som abaixo dos decibéis permitidos, opção política, religiosa, sexual não se discute, e nas horas de dificuldades estamos todos juntos, afinal de contas vizinho é o primeiro a quem se pede socorro, ensinava minha mãe, versada em política da boa vizinhança.

Só para ilustrar: em 2006, a residência dos Picanço e Silva esteve sob ameaça de incêndio generalizado provocado por um curto-circuito e os primeiros socorristas foram os nossos vizinhos Luis Santos e família, Roberto Favilla e família.

Meu pai, um homem alto, pesando quase 90 quilos,  recém-operado,  impossibilitado de andar, precisava ser retirado de casa às pressas; colocado em uma cadeira de rodas, com ajuda dos vizinhos e populares foi posto são e salvo das labaredas de fogo controladas depois pelos bombeiros.

Contrapondo-se à civilidade que deve haver entre cidadãos, assusta o número de casos de violência, de falta de respeito, e de agressões entre vizinhos nesta época do ano, brigas que não se limitam aos mais pobres, aos suburbanos, aos ignorantes, como se pode imaginar.

Só no dia de Natal, 25/12, o Batalhão Ambiental registrou 125 queixas de vizinho contra vizinho, um acusando o outro de  ‘esfolar’ o som acima dos decibéis permitidos pela lei. E aí, amigo, ‘não tem combate’, como diria aquela  madame dando aula de bons costumes no rádio tucuju…

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