CRÔNICA

DSC00428OCTOGENÁRIO BOA PRAÇA

João Silva

Casado com Odenira Alberto Nery, graças a Deus lúcido e gozando saúde, Eulálio é um dos filhos desta terra mais ilustres que conheço, embora não seja um doutor, político, magistrado ou coisa parecida; é um homem simples, um dos dois servidores remanescentes da fundação do Ginásio Amapaense, aonde trabalhou 35 anos e 7 meses como bedel, chefe de disciplina ou inspetor de alunos como falamos por aqui.

Quando nem era ainda Capital do Território do Amapá, pequenininha e atrasada na sua mocidade, Macapá tinha muito pouco a oferecer aos seus habitantes, nem escola tinha. Sem alternativa, juntou-se a um grupo de amigos para garimpar subindo os rios Amapary, Vila Nova e Maracá, pensando no futuro das crianças.

Por causa das adversidades, das noites indormidas nos grotões distantes do aconchego do lar, deixou alguns anos da sua juventude nos garimpos da região em companhia de outros desbravadores do Amapá.

Aposentado desde 1976 fixou-se com a família na Mendonça Furtado, vizinho a antiga Favela, e não abre mão de uma cervejinha bem gelada ali pelas redondezas, que ele não é de ferro; adora festa, barzinho, gosta de conversar com jovens, jogar conversa fora com quem esteja disposto a ‘consumir’ sua simpatia e bom humor.

“Enquanto tiver saúde, estou aí meu parente batendo pernas pelas ruas da nossa Macapá, que poderia estar melhor se a política fosse coisa seria como deveria ser; se possível bebericando sem perder a esportiva e o rumo de casa na hora certa!”.

Octogenário boa praça, Eulálio se orgulha de ser um dos dois remanescentes vivos da primeira turma de servidores públicos que trabalhou na antiga Divisão de Educação do Território Federal do Amapá.

Guarda boas lembranças dos amigos que ingressaram com ele no serviço público, como Eloína Aranha Nunes e Joaquina Menezes (Tia Quinoca); eles pertenciam ao corpo administrativo da instituição; Dona Joaquina Menezes já morreu, Eloína vive em Belém com 78 anos de idade.

Eulálio Soares Nery me vê, sorri, vem logo abrindo aquele baú para tirar lá de dentro curiosidades do seu tempo de Colégio Amapaense, como parte de uma engrenagem que tinha pulso, coração e compromisso com a educação.

Ele e seus companheiros de serviço público combatiam o atraso com a força de um “combustível” precioso: o idealismo professado por todos naquela época, inclusive pelos governantes e mestres inesquecíveis, sem os quais não seria possível preparar os filhos do Amapá.

Mesmo sem muito estudo,  compreendeu que educação é tudo; o Eulálio Soares Nery captou a mensagem e caprichou; ele e sua companheira de mais de 50 anos deram à nossa terra uma família bonita que formou dois médicos, dois engenheiros e um bacharel em ciências contábeis.

No dia do aniversário da cidade, todo de branco, emotivo, sempre bem humorado, cheio de gelada, abriu o velho coração de manteiga pra me fazer rir:

– Parente, dei um duro danado na vida pra formar meus filhos por duas razões:uma  para que se dessem bem na vida e outra para que não me pedissem dinheiro emprestado!

Sobre o Eulálio,  uma curiosidade que ele mesmo gosta de contar: não fosse a sedução por cabocla viçosa dando bola na Festa de São Joaquim , teria embarcado naquele vôo fatídico em que morreram Hildemar Maia, Coaracy Nunes e Hamilton Silva; felizmente, na hora “h”, prevaleceram os olhos negros e outras atributos da mulher que o encantara, preferindo, para sua sorte, viajar no dia seguinte…

Parabéns ao grande Eulálio pelo exemplo de cidadão honesto com sua história de doação e serviços prestados ao Amapá, pela bela família que deu a esta terra – Você não tem a visibilidade dos graúdos, mas é um amapaense que orgulha seus conterrâneos. Saúde amigo  e mestre, paz, amor e sorte ao lado daqueles que te amam.

 

 

 

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2 Respostas para “CRÔNICA

  1. “Seu” Eulalio, como costuma ser chamado pelo que prezam da sua companhia e amizade, figura “Histórica” e testemunha ocular daquele fatidico dia que ele, conta de vez enquando como tudo aconteceu.
    Satisfação enorme, saber do “Parente”…velho amigo do Sr. Eugenio Machado ai do nosso Bairro alto.

    Muito bom saber que ele esta bem, firme e forte e ainda prozeando .

    • Marcelo Valente eu filho de Raimunda Neri Valente sobrinha do Iaiaio como ela o chama tenho orgulho de ter uma “parente” que faz parte da história do Amapá!

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