CRÔNICA

UMAS E OUTRAS DO NENA LEÃO

João Silva

O brasileiro desliga no carnaval. Meu amigo Antônio Cardoso, delegado, ex-secretário de Segurança Pública, também desliga…Carnaval é carnaval, e fim de papo!

Foi dele a iniciativa de fundar o “Unidos do Pau Grande”. O cara é apaixonado por carnaval. No Reinado do Momo pede uma folga ao ofício de homem da lei para virar folião de tempo integral: dorme, toma café, almoça e janta vestido com a fantasia do Bloco Unidos do Pau Grande, uma homenagem a Garrincha, Gênio das Pernas Tortas.

Anota aí: Garrincha nasceu  em Pau Grande, interior do Rio de Janeiro, de onde saiu para brilhar depois no Botafogo, na Seleção Brasileira, e correr o mundo fazendo jogadas que entraram para a história do futebol; foi bicampeão mundial de 58/62 e veio ao Amapá para se despedir dos amapaenses no início da década de 70, no final da sua carreira.

Fundado em 1983, Unidos do Pau Grande disse a que veio, tanto que conquistou vários títulos de campeão do carnaval na sua categoria – seis ao todo, e segue muito bem nos desfiles da LIBA; este ano exalta na Avenida a história do Nena Leão, o “Pai”, cara e tanto, flamenguista, piratão de carteirinha, dono de uma religião da noite de Macapá, o Bar La Boheme!

O enredo é uma colher de chá à noite de Macapá, distingue uma das suas figuras mais festejadas, mas poderia incluir na homenagem o Bar Du Pedro, o Mercado Central, o Xiri Molhada, o Fundo de Quintal, a Saudosa Maloca…Cantores como Manoel Sobral, Rafa, Rodolfo Santos, Déo Morais, Jorginho do Cavaco, Batan, Júlia Medeiros, e Maria Eli, personagens igualmente interessantes, a exemplo do Nena e do seu La Bohême ao som dos boleros, valsas e samba-canções que vai tirando, sem pressa, da sua da velha vitrola para emocionar a boemia tucuju.

E tome saudade e romance, tome Miltinho, Reginaldo Rossi, Nelson Gonçalves, Bethe Carvalho, Ângela Maria, Ataulfo Alves, Emilinha Borba, Clara Nunes, Maysa, Agnaldo Rayol, Roberto Carlos, José Augusto, Carlos Alberto, Agnaldo Timóteo, Francisco Petrônio, Eduardo Araújo, Roni Von, Adilson Ramos, Leny Andrade, Maria Bethânia, Altemar Dutra, Silvio César, Orlando Silva, Caetano Veloso e outros.

O Nena quando está “pilotando” o bar da sua vida tem lá suas manias, fique ligado; trate-o de “Pai” – ele gosta, e certamente vai devolver a você mesmo tratamento; não estranhe a defumação, a vela acesa no canto, o pião roxo na entrada, a coruja em porcelana e seus dois olhos fosforescentes no alto da prateleira; não faça pedido musical, não pense em atravessar o balcão, não toque nas preciosidades em vinil (compactos, compactos duplos e CDs) da sua discoteca!

Outra coisa: a cara fechada não quer dizer nada, embora não suporte chato e fiado também; não esqueça que ele trabalha duro, mas toma umas e outras enquanto atende a freguesia; a sua grande sacada mesmo é fazer clima, botar fogo na paixão, arrancar da garganta dos apaixonados aquele grito: “Mata, Pai!”, aliás uma tradição da casa que vive da sensibilidade que Deus lhe deu, tirando do fundo do baú o sucesso que os seresteiros gostam de ouvir nas noites do La Bhoeme.

Conheço o Nena do tempo em que trabalhava na Banca Cinelândia, na Praça Veiga Cabral, com aquele rádio imenso (seis faixas) ligado no programa de Paulo Moreno da rádio Globo! É macapaense, irmão de L.Coimbra, que fez parte do “cast” da Rádio Difusora de Macapá (ator de rádio novela), talvez o primeiro colunista social de Macapá, ele que foi embora para o Rio de Janeiro, e morreu assassinado na Cidade Maravilhosa

Homenageado do Pau Grande lembra também o sucesso da boate “O Corujão” e suas domingueiras imperdíveis; tem a ver com algumas brincadeiras do tempo em que a zona de Macapá era longe pra caramba, como se dizia antigamente! O apelido de “Rei da Noite”, inspiração do radialista Arnaldo Araújo, marcou as farras homéricas que alegraram boa parte da nossa mocidade; uma vez saímos pra fazer uma daquelas, eu, Nena Leão e o Pia-Pau, que tinha um problema: qualquer despesa ele fazia questão de pagar por bem ou por mal, na marra, digamos.

Naquele dia chuvoso, dez horas da noite, o trio chega de táxi ao “Merengue”, em área que ficava por trás do Hospital São Camilo, que não existia na época; era um salão em que se dançava e se arrumava companhia de segunda a domingo; o motorista então anuncia o preço da corrida do centro até ali, e o Nena Leão se antecipa: Essa eu pago, Pai! – se referindo ao Isidoro (Pia Pau), que alertou – Não, Pai, quem paga sou eu!

Daí é que o Nena insistiu, sem perceber que corria risco – tentei avisá-lo em vão – eu que conhecia bem a figura; tanta insistência, não deu outra: o Pia Pau meteu a cabeça no Nena Leão na frente do taxista assustado e o jogou de peito na lama, após o que se dirigiu a mim para perguntar o que eu já esperava: E aí, Balala, queres pagar a corrida?  Claro que eu lhe disse um sonoro NÃO!

Sobre Nena Leão existe aquela do Jamil Valente, freqüentador assíduo do La Boheme nos dias de sábado; cedo lá estava o advogado sempre bem acompanhado, sorvendo umas e outras doses de uísque sabidamente abaixo da quantidade devida, apesar de custar o olho da cara; o Jamil achava ruim, mas ficava na dele, pra não perder a pose e amigo de longa data.

Sábado no mundo, apurado no bolso, velho Nena cerra as portas do La Bhoeme e convida o último cliente e amigo para uma esticada ao badalado Cabaré Safary, já na madrugada de domingo; eventualmente sozinho, sem amor e sem carinho, Jamil aceita o convite e leva o Pai no seu carro; chegam ao dançará e se acomodam em mesa próxima ao bar, de onde acionam um garçon magro e cara de poucos amigos, a quem ambos pedem uma dose de Royal Label.

A bebida é trazida em copo de terceira categoria, daqueles de azeitona; o Nena Leão olha a quantidade minguada de uísque no fundo do copo, se sente explorado, e reclama da sorte bem debaixo do bigode do Jamil Valente que aproveita para desabafar:

– Pois é, Pai, dói não é Pai, como dói!

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