CRÔNICA

O XODÓ DA VIÚVA!

João Silva

Quando a cidade grande “chega”, claro que vai suprimindo deleites que uma cidade pequena oferece aos seus moradores, substituindo inocentes prazeres  por outros  mais modernos, digamos.

Quando alguém perguntava ao Duca Serra qual a Macapá que  mais gostava, a de ontem ou a de hoje,  respondia em cima da bucha que gostava mais da Macapá da TV a cores e do sanitário dentro e não no quintal da casa, como gostava de dizer.

Acontece que viver esse processo de mudança de hábitos entre o provincianismo e a modernização das cidades não é fácil por que essas transfomações, com ajuda da tecnologia, ganharam velocidade, ocorrem no piscar de olhos.

Como aprender a viver então com mudanças tão bruscas, outras nem tanto? Certo é que somos levados pelo arrastão, obrigados a rever hábitos,em alguns casos por questão de vida ou morte, até.

Ora, amigo, numa metrópole tem que se saber aonde vai, com quem vai, se ainda é possível  ficar diante das nossas casas depois das seis, e se as nossas casas estão bem trancadas; se têm cerca elétrica, muro alto, portas e janelas gradeadas e se está protegida por câmera de segurança.

A Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, 70 mil habitantes, reduto de traficantes sanguinolentos, monitorada por câmeras de longo alcance 24 horas por dia, virou um “bairro transparente”; na 49º Feira Agropecuária do Amapá medida semelhante fez o crime passar longe do evento.

Uma beleza, tudo bem, mas se possível queria  gozar de um privilégio: continuar a viver alguns prazeres da cidade pequena – pelo menos os que mais gosto acrescidos dos prazeres da cidade grande.

Não é possível, poderia me dizer a sabedoria sentada na sua cadeira de balanço, e eu lhe pediria um aparte, humildemente: – Mas mestra, uma concessãozinha aqui, outra concessãozinha ali, não vai fazer o mundo acabar, vai?, afinal nuitas coisas antigas resistem ao novo para sempre.

É que eu tenho uma vizinha muito simpática, que depois da morte do marido resolveu trazer alegria para a General Gurjão, bem ao lado do Teatro das Bacabeiras, onde “roncavam” os motores da Usina de Força e Luz  em tempos que lá se vão.

Justo pra animar esse lugar, a viuvinha trouxe um xodó que carinhosamente deu o nome de Fred,em homenagem ao artilheiro do Fluminense, e o manteve em segredo, sem apresentá-lo aos vizinhos e amigos incautos como este escriba…

Não que fosse alguém que quisesse ocupar de novo o coração da viuvinha,um novo amor, como poderia propalar algum fofoqueiro de plantão! Nada disso, amigo!

O Fred é um galo de pena, de bico, um galo de cantoria, um galo da melhor qualidade, para lembrar um amapaense de boa cepa, o Eury Farias, que gosta muito da expressão com a qual cumprimenta seus melhores amigos!

E aí, camarada, é que foi impossível não lembrar da minha meninice pobre no Largo daMatriz ao despertar ouvindo o canto do Fred dia desses, bela manhã de setembro!…Um galo cantando na madrugada como antigamente, uma delicia!

Sem sair da cama, voltei à Macapá da época em que havia um quintal em cada casa, e em cada quintal um galinheiro com frango e ovos frescos para suprir uma necessidade – não sem  o sucesso e a cantoria de um galo esperto como o Fred – e até mais de um, muita das vezes!

Certo que estou contente, os vizinhos também! Com sua bela cantoria o Fred vai provando que um galo velho pode acrescentar uma pitada de poesia nas madrugadas de uma cidade do século XXI com seu mar de automóveis e arranha ceús, ainda se dando ao luxo de oferecer aos vizinhos a repitota da sesta da tarde.

Claro que vou ficar na torcida esperando que o Fred não vire canja tão cedo, tão cedo não nos falte seu canto bonito e pontual; que por enquanto não seja preciso a viuvinha levar seu xodó pra panela e mandar pro espaço nosso melodioso despertar…

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