CRÔNICA

UM CENSOR MUITO ENGRAÇADO

 João Silva

Estudantes de jornalismo me pediram a gentileza de um depoimento sobre curioso episódio ocorrido durante o golpe militar de 64 envolvendo a figura de Antônio Munhoz Lopes em foto acima assim que chegou ao Amapá.

Assunto foi requentado pelo repórter Hélio Penafort, quando decidiu divulgar na imprensa curiosidades que marcaram aquele período de agitação no Amapá, incluindo prisões, em grande parte motivada pela prática de corrupção; caso de um funcionário obrigado a caminhar pelas ruas de Macapá levando na cabeça máquina de escrever que roubara da repartição em que trabalhava.

Algumas dessas prisões entraram para o folclore, como a de um gorducho conhecido por Mimo, jeitão de intelectual, que vivia tomando umas e outras; era só ficar de porre, danava-se a falar sobre metralhadoras que entocava no Ipixuna, enviadas, segundo ele, por camaradas de Praga; por causa desse delírio acabou sendo recolhido para explicar a história diante dos agentes do DOPS.

Verdade é que Hélio Penafort, como poucos, acompanhou o desencadeamento dos fatos; viu a Revolução desembarcar nas terras das bacabeiras; chegou a trabalhar com alguns dos generais e comandantes de mar-e-guerra nomeados para governar o Território do Amapá, servindo com lealdade os governos de Ivanhoé Gonçalves Martins, Arthur Henning, José Lisboa Freire, Jorge Nova da Costa e Annibal Barcellos.

Detalhe é que o jornalista colaborava com “A Voz Católica” e a “Rádio Educadora”, de propriedade da Prelazia de Macapá quando a ditadura instalou-se no Amapá; aconteceu então curioso encontro do jornalista com um censor insólito chamado Antônio Munhoz Lopes,   conhecido por sua vasta cultura, algo que não passou desapercebido dos gorilas da Revolução.

Só depois que o Hélio resolveu comentar assunto na imprensa escrita (“O Grotesco e o Pitoresco na Censura à Imprensa no Amapá”), bem naquele seu estilo gozador, lembrando que a missão do censor redundara em fracasso total, é que o caso voltou ao noticiário acrescido de alguns detalhes que não são fiéis à realidade dos fatos; isso aconteceu depois da morte do jornalista.

É fato que o Munhoz fora mesmo indicado pela Associação Amapaense de Imprensa debaixo de pressão dos milicos para atuar como censor nos jornais Voz Católica e Folha do Povo; democrata, católico de ir à missa, confessar e comungar, se viu num situação de conflito pessoal, e quase teve um ataque de nervos quando os “homens” ameaçaram  prender o padre e jornalista Jorge Basile, salvo pela a ira santa de Dom Aristides Piróvano, Bispo Prelado de Macapá.

Não poderia ser diferente, afinal Munhoz Lopes chegou cedo ao Amapá, conheceu Macapá pequena, ainda ostentando ares de província com suas casas pobres e poucas ruas que percorria a pé, como faz até hoje, identificando as famílias pelo nome e sobre nome; formado em direito, em Belém do Pará, veio trabalhar no Amapá como delegado de polícia, mas aqui descobriu a vocação para o magistério.

Claro que trabalho em sala de aula deixou o professor de literatura do Colégio Amapaense mais exposto a uma relação de amizade com a juventude que ajudou a polir, encaminhar, a transformar em engenheiros, médicos, economistas, sociólogos, políticos, produzindo competência, recursos humanos, massa crítica para desenvolver o Amapá e construir uma sociedade mais justa.

O Munhoz, quanto delegado de polícia, sabia que uma alfinetada do Bonfim Salgado nos escribas da RDM nada tinha a ver com subversão da ordem; sabia que a preocupação do Élson Martins, do Tito Guimarães, do Hélio Penafort, do Jorge Basile, e do Caetano Maiello era de reação à arrogância dos militares, tanto quanto a rebeldia de algumas lideranças estudantis pouco se devia a Marx, ao comunismo, a idéia da luta armada com objetivo de colocar o Brasil na órbita de Moscou.

Depois, como um intelectual, um democrata, um homem sensível, culto, assim de repente, tomaria a iniciativa de se apresentar a um regime de exceção para cumprir a missão de sufocar a liberdade de expressão na imprensa do Amapá?

Servidor público, Munhoz não tinha como dizer não à indicação feita pela Associação Amapaense de Imprensa, certamente pressionada pelo regime que fecharia o Congresso mais adiante e mandaria muita gente para o exílio; foi diante dessa circunstância que pensou numa solução inteligente para o que lhe parecia um beco sem saída, que foi fazer de conta que fazia censura.

Na matéria de Hélio Penafort, chama atenção a posição da Associação Amapaense de Imprensa curvada ao tacão da ditadura sem qualquer resistência, tempo em que era presidida pelo jornalista Paulo Conrado, que nomeou a si mesmo censor, numa outra decisão que traiu a história da Associação Brasileira de Imprensa – ABI, que comemorou em 2007 cem anos de luta pela liberdade de expressão no Brasil.

É uma curiosidade pedindo esclarecimento, passado tanto tempo. Quem poderia dizer alguma coisa sobre isso, era o Paulo Conrado, que já nos deixou há algum tempo. Mas imagino que esse episódio grotesco se deva debitar ao que acontecia no Território do Amapá, em que poucos tinham coragem de contrariar o governo, ainda mais se fosse autoritário com tendência a ditatorial; como Paulo Conrado era barnabé, e tinha filhos pra criar, sobrou pra ele.

No caso de Munhoz Lopes também pesou sua condição de servidor público em início de carreira, ele que, curiosamente, chegou a ser “convidado” por ofício pelo padre e jornalista Jorge Basile, redator da Voz Católica, a comparecer ao jornal para exercer a função de censor, o que não vinha acontecendo.

Ai é que fico imaginando o que deve ter sofrido quando precisou escolher das duas uma: aceitar a imposição dos milicos ou escafeder-se do Amapá para sempre… Ainda bem que ele decidiu ficar.

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