CRÔNICA

OS FRUTOS DA CASA MORAES

João Silva

Como os Coutinho, os Figueiredo, os Mira, os Abdon, os Bitencourt, os Andrade, os Serra, os Leitão, os Santos Juarez, os Monte, os Torrinha, os Capiberibe, os Silva, os Martins, os Pereira, a família de Antônio Moraes Cardoso também chegou por aqui em uma canoa à vela, também fez a travessia da baia de Macapá em busca de melhores dias.

O primeiro sofrimento é deixar tudo pra trás, decidir migrar, arriscar, dar um salto sem o qual suas vidas continuariam sem perspectiva de melhora – concorda vitorioso empresário que também acreditou na travessia da baia de Macapá.

Muitos dos caboclos que deixaram seus vilarejos perdidos na floresta densa ou à margem de rios e dos igarapés da Amazônia o fizeram por muitas razões, mas uma delas mais importante que todas: a necessidade de oferecer aos filhos um futuro melhor, a oportunidade de estudar, de crescer na vida, de conquistar um lugar na sociedade.

Claro que vir para a cidade tinha sua vantagens, além da educação dos filhos, como lazer, hospitais e assistência médica a quem quisesse e a hora que fosse preciso, afinal o Território do Amapá era uma grande mãe que a todos acolhia sem separar os que aqui nasceram dos que aqui aportassem com suas esperanças; quem  não quisesse estudar ou ser funcionário público, abria uma portinha na Doca e não se falava mais nisso.

Certo é que são estórias de coragem, de suor e lágrimas, estórias bem sucedidas na maioria dos casos. O patriarca da família Moraes Cardoso, “seu” Antônio, lembra que chegou à Macapá numa manhã chuvosa de fevereiro de 1953, trazendo a mulher, dona Augusta, e dois filhos pequenos; e assim que chegou foi botando a mão na massa porque barriga de moleque não pode esperar.

Foi amanhecer o dia pra  tomar outra decisão importante: usar o que havia economizado para levantar bem próximo ao junco do Igarapé da Doca da Fortaleza, os esteios da “Casa Moraes”, fazendo fundo com a Casa Deus e Maria, do velho Pia-pau, há bem  pouco tempo  administrada pelos descendentes da família Figueiredo, outra bela história que resistiu às para se estabelecer  no comércio de Macapá, entre elas dois incêndios.

Comércio do “seu” Augusto na verdade era uma mercearia muito freqüentada por servidores públicos, gente que gostava de tomar uma pinga tirando o gosto com caroço de taperebá antes, no intervalo ou depois do expediente nas repartições públicas de Macapá; fez sucesso na base do jeitinho que o dono ia levando, sempre muito amigo, sempre disposto a uma boa prosa com a freguesia.

Outra coisa que sustentou por muitos anos o sucesso da Casa Moraes foi a incrível tolerância a uma “instituição” que levou muitos comerciantes à falência naquela Macapá de antigamente, o tal do fiado, que, só liberava se pretendente fosse funcionário da Prefeitura ou do Governo do Amapá mediante apresentação do contra cheque.

A Casa Moraes, que cerrou as portas com os incêndios na Doca e o  trabalho de aterramento da frente da cidade, no início da década de 70, ainda migrou para a “Baixada da Maria Mucura”, também tirada de lá pelo processo de modernização da capital amapaense.

Mas não sumiu de vez: pode ser vista em uma das telas do artista plástico R. Peixe, talvez a mais importante de todas, “A Doca da Fortaleza”, painel instalada no aeroporto Internacional de Macapá, precisando de cuidados. Natural de Breves, amapaense de coração, aposentado, 83 anos de idade, cercado pelo carinho dos filhos, “seu” Antônio exibe no rosto a expressão serena do dever cumprido.

Deixa atrás de si uma estória bonita, um exemplo que não seria possível sem o batismo de fogo que se constitui, para milhares de famílias das ilhas do Pará, que é a decisão de migrar, de fazer a travessia da baia de Macapá em busca de melhores dias.

Casal Antônio (Augusta) Moraes Cardoso gerou dez crianças e formou dez filhos, oito deles nascidos em Macapá, todos advogados; entre outros, deu ao Amapá um juiz eleitoral, um promotor de justiça, um assessor parlamentar, um ex-secretário de segurança pública, parte da prole que os dois chamam  carinhosamente de frutos da Casa Moraes…

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