CRÔNICA

A crônica deste domingo é uma homenagem aos 109 anos de nascimento do mestre João Zacharias Teixeira Leite, que ocorreria este ano, dia 5 de novembro, se vivo fosse; ele morreu na madrugada do dia 7, após a festa dos seus cem anos de idade, em 2003; a crônica foi publicada na Rádio Antena-1 e no jornal Diário do Amapá no dia do seu aniversário.

OS CEM ANOS DO MESTRE ZACHARIAS!

João Silva

Como silenciar diante de um homem probo e os seus cem anos de vida?  “Impossive meu paente (sic)”, diria o poeta Paulino Ramos, de saudosa memória. Muito mais em se tratando de João Zacharias Teixeira Leite, o Mestre Zacha, Prefeito Honorário da Favela…Aliás, o Tio Zacha foi proclamado patrimônio vivo da nossa cidade.

Trata-se, portanto, de um tucuju assumido e acima de qualquer suspeita. Quem quiser pode trazer lupa, pode ler nas entrelinhas por que nenhum pescador de águas turvas achará o que pescar nesse “rio” generoso que mata nossa sede da decência perdida nos dias de hoje!

Nenhum individuo lerá neste livro aberto uma linha que desabone um século de vida bem vivido e que festejamos hoje. Onde o Tio Zacha mora, fala muito dele mesmo, da sua honestidade, da sua vida, da sua história.

Assim que casou foi morar com a sua eleita, D. Dica, na mesma casa simples em que reside até hoje. A companheira leal, mãe dos seus filhos – Francisco, João Leite, Lelé, Percival, Maria Lina e Odete-, faleceu em 99 e levou com ela um pedaço do coração do Mestre Zacha, que ficou triste e solitário, mesmo cercado pelo calor humano dos seus familiares e dos amigos, dos muitos amigos. Duvido que naquela casa sua companheira tenha vivido menos de 70 anos da sua existência.

A separação não foi fácil, mas Zacharias, como grande e frondosa árvore centenária, resiste a dor que lhe corrói, a ventos brabos e tempestades relampejantes sem nunca ter ido ao chão.

Pela sala de visitas da velha casa da Favela passaram figuras influentes nos últimos 50 anos, oferecendo cargos, vantagens, fazendo propostas impensáveis para um homem da sua formação. Mas, tranqüilo como sempre, sentado na mesma cadeira de balanço em que viu pela televisão o homem chegar à lua, rejeitou uma a uma, todas as tentativas feitas contra sua honra.

Ex-servidor público municipal, aposentado do Exército Brasileiro, pé de valsa e namorador, na mocidade também tocava trombone na Banda do padre Júlio Maria Lombaerde, ao lado do poeta e grande amigo, José Serra e Silva (Zeca Serra), a quem acompanhou na política, mesmo contrariando Janary Nunes.

Uma vez, o “Serrinha” criticou os Nunes e o Zacarias foi pressionado pelo poder. O Palácio queria que ele e outros amapaenses assinassem desagravo, ofendendo o amigo de longa data. O Zacarias não só negou-se a fazê-lo, mas ainda expulsou os enviados de Janary da porta da sua residência. O governador elogiou a coragem do Zacharias.

Então o que dizer mais sobre esse macapaense ilustre no dia em que nasceu? Ou o que ensinar a esse mestre do tempo, com a experiência dos seus mais de 3.650 dias, mais de 100 carnavais,que viu Macapá pequenininha, que passou por todos os intendentes, prefeitos, governadores, por todas as guerras do nosso século, dono de imenso patrimônio ético e moral que foi amealhando com sabedoria e respeito da sociedade amapaense?

A Ensinar-lhe, claro, nada tenho, mas poderia pedir-lhe a bênção e, humildemente, perguntar:- Mestre Zacha, num País como o nosso, o que fazer para viver cem anos?

“Temperança, equilíbrio diante dos arroubos da juventude, nada de drogas, nada de bebida, honestidade; família, paciência diante das agruras, amigos leais, humildade, amor ao próximo, ao Amapá,ao Brasil e dormir tranqüilo ao lado da mulher que ama”.

Foi o que me disse, confessando-me, sem pedir segredo, que o sentimento pela sua companheira de mais de 70 anos, fora o grande elixir da vida longa e da felicidade duradoura que os uniu e haverá de juntá-los, de novo, em algum lugar do universo que só Deus sabe onde é que fica.

Nesta data querida, brindemos o triunfo da sabedoria encarnada em um homem de fé! Palmas para o Tio Zacha, ele mereceu ter chegado até aqui com a graça de Deus, e merece ficar mais um pouco entre os que o amam! Eu disse “com a graça de Deus”, segundo Tio Zacha, Ser Supremo, Luz e Inspiração da sua caminhada na terra…

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