CRÔNICA

O CHILREAR DOS PARDAIS

 João Silva

Antônia Picanço e Silva (foto), macapaense, mulher de origem pobre, mas obstinada, nasceu em l5/11/1912; se ainda estivesse entre nós completaria um centenário de vida no dia 15 de novembro deste ano.

Nascida filha de Manoel Praxedes e Estefânia Picanço, menina ainda teve que entrar na mata pra catar caroços de muru-muru pra ajudar no sustento da família; menos de 15 anos, sob orientação da mãe, ajudava a botar tempero nos quitutes que iam enfeitar a mesa dos Intendentes de Macapá.

Em l930 conheceu Emanuel Serra e Silva, Duca Serra, primeiro namorado, com quem casaria em l938 e seria seu companheiro numa relação que durou mais de meio século e gerou nove filhos.

No dia do casamento, numa gentileza do intendente, os noivos saíram a pé da sede da Intendência para a Igreja de São José. A morte de dona Antônia Picanço separou marido, mulher e todos nós, seus filhos, netos e bisnetos, no dia 10 de fevereiro de l997.

É difícil falar da mulher que nos deu à luz e a vida. Costumo dizer que a minha mãe foi uma prenda do lar que habituara-se a enfrentar as adversidades, que não foram poucas.

Na sua infância e mocidade faltava quase tudo em Macapá, menos pobreza e atraso, mas nada que a impedisse de entender o valor da educação.

Educar, criar filhos – e muitos filhos!- nesse cenário de carência era uma luta sem trégua! Portanto sonhar era difícil, mas não proibido – e mesmo que fosse, tendo a conhecido tão bem, tenho certeza que ainda assim não abriria mão dos seus sonhos.

Seres que gerou foram mais que a razão da sua vida e vê-los formados foi mais que isso; não tirava o olho da prole que trouxe ao mundo; queria educá-los, fazê-los cidadãos, encaminhá-los para a vida, sem perder nenhum.

Nas prosas de fim de tarde gostava de falar sobre aspereza dos caminhos percorridos, sobre a consolidação de uma família de verdade, grande, bonita e feliz, incluindo os filhos adotivos que também transformou em cidadãos úteis á sociedade.

Morreu como um passarinho. Na sua face – todos comentavam no velório-, havia a expressão serena da despedida em paz com todos que a amavam, como era seu desejo.

Católica, apostólica, romana, em casa mesmo, já enferma, mantinha velas acesas, santinhos arrumados no altar improvisado, terço na mão, oração, muita oração, e fé nas boas ações.

Por muito tempo sua solidariedade montou plantão no número 77 da Avenida General Gurjão: alimentava meninos de rua, doava roupas usadas, reanimava com seu amor ao próximo quem precisasse de um prato de sopa, de oração, de ajuda espiritual.

Depois de uma crise de diabetes lembrou a morte do filho  Roberto, 7 anos de idade, em agosto de 1954, quando teve que ser hospitalizada várias vezes, e abriu o coração: “Celebrei um pacto com Nossa Senhora: se for pra sofrer a morte de outro filho quero que me leve antes”.

Fez a revelação sem declinar a graça do sinal obtido por ela, segundo qual o pedido seria atendido, tinha certeza. Isso ela levou para o túmulo.

Morreu em 1997, o que quer dizer que se foi sem sentir de novo a dor lancinante da perda de um dos seus filhos, concluindo-se, assim, que Nossa Senhora fizera sua parte, e dona Antônia também.

Outra coisa digna de revelação: vivia demonstrando afeição por um bando de pardais que frequentavam os jambeiros que ela  plantara e vira crescer – aves tenras que vinham mansamente comer arroz cru aos seus pés todo santo dia no alpendre da nossa casa.

Várias vezes a ouvi dizer que no dia da grande viagem ficaria muito contente se aquelas criaturinhas a levassem à presença de Nossa Senhora…Impressão ou não, coincidência ou não, quando nos deixou para sempre, no dia 10 de fevereiro de 1997, nas horas que sucederam sua morte, vizinhos, amigos, filhos…Por um lapso de tempo que pareceu uma eternidade, ninguém ouviu o chilrear dos pardais…

 

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Uma resposta para “CRÔNICA

  1. Saudades de Minha Mãe !!!

    Saudades de Minha Mãe…
    Quando a saudade apertar e os olhos já não puderem mais enxergar, o coração vai falar, e falando, ele vai te levar de volta àquele lugar…

    Vão te avisar que tudo passa, vive e acaba. Mas é mentira, pq tudo oque é verdadeiro é eterno. Só ilumina agora um outro lugar!

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