CRÔNICA

Milhomem e a mangueira que salvou da degola

A MANGUEIRINHA DE SORTE

Quando não olhamos a cidade em que vivemos com o sentimento de filho amoroso, muita coisa passa despercebida, passa em brancas nuvens!

É o que nos impõe a correria da vida moderna. Vamos atropelando e sendo atropelados. Passamos pela solidão dos pedintes, pelos atropelamentos, pelas mortes no trânsito, e a vida se embrutece, não é isso?

Muitas vezes a violência das ruas vira descaminhos que conspiram contra o significado de um gesto de amor ao próximo, à cidade que a gente ama.

Não damos valor às coisas simples, como, por exemplo: quanto vale uma árvore para a vida numa cidade cortado pela linha do Equador, como a nossa Macapá? Isso faz alguma diferença?

Eu sempre tenho guardado um olhar atencioso para a cidade em que nasci. O Largo da Matriz, que era um descampado na minha meninice foi dividido ao meio com a reurbanização da cidade de Macapá.

Uma parte ficou sendo Praça Veiga Cabral que hoje conhecemos; a outra foi ocupada pelo prédio que viria ser o primeiro grande teatro de Macapá.

Depois de pronto, enquanto se discutia qual o nome a ser dado à casa de espetáculo,sem se importar com a discussão nos meios de comunicação, crescia tranquilamente no entorno de belo prédio viçosa mangueira plantada ali sabe Deus por quem.

Folhas verdinhas, o arbusto crescia no caminho dos passantes; ia se encorpando graças aos seguidos invernos amazônicos, e logo teria sua primeira florada, seus primeiros frutos, e em poucos anos mais se transformaria numa bela árvore.

Corriam os anos 90 quando, enfim, botou-se uma pedra de cal na discussão sobre o nome da casa de espetáculo; decidiu-se que o teatro erguido no coração da minha cidade seria Teatro das Bacabeiras em redor do qual deveria ser plantada a palmeira que dera origem ao nome e parte da história deste lugar.

Restava saber se o fim da querela decretava a morte da mangueirinha que crescia próximo a casa de espetáculo! Chegou a correr risco sim, senhor, já que havia o consenso de que ela não poderia destoar na paisagem onde reinaria a árvore símbolo da cidade de Macapá.

Logo apareceu um caboclo daqueles! Facão, machado em punho, motosserra por via de dúvida. Era só a insensibilidade autorizar e a mangueirinha já era! – viria abaixo aos pedaços, certamente!

Eis que surge então uma alma generosa para salvar o arbusto correndo risco de sumir do mapa numa cidade nascida à beira do Amazonas, no meio da floresta, e que não pode prescindir do verde e da sombra das árvores, tão importante para preservar o ar que respira!

Quem comprou a briga e a sorte da arvorezinha foi o deputado federal Evandro Milhomen, que agiu com presteza antes que viesse abaixo ao som da serra elétrica empunhada por aquele caboclo com a cara de poucos amigos.

Na época nem sonhava em ser candidato a prefeito e o parlamentar precisava de uma mangueira nova para enfeitar um cantinho especial do Largo dos Inocentes, justo lugar em que outra morrera de velha.

Sinceramente, outra pessoa teria desistido da empreitada, afinal a bendita árvore já possuía um bom porte, um tronco considerável. Mesmo assim o Milhomen topou o desafio e a removeu pela raiz com ajuda de voluntários e de uma escavadeira emprestada por amigos do governo.

A operação “Eu te amo Macapá” foi um sucesso. A mangueirinha deu trabalho, mas foi tirada do lugar em que estava e replantada no Largo dos Inocentes, por atrás da Igreja de São José com os aplausos da comunidade; daí é que vingou, cresceu, deu frutos e passa bem.

Quando isso aconteceu nem se falava em mudanças climáticas, nas altas temperaturas que ameaçam a vida no planeta. Mas se falava numa cidade sem verde, precisando retomar a arborização das suas praças, ruas e Avenidas.

Infelizmente, pouca gente gosta de cuidar de uma árvore, pouca gente contribui para o embelezamento da cidade ou avalia os benefícios que o verde pode prestar á qualidade de vida dos cidadãos que vivem em Macapá sob efeito das altas temperaturas do verão.

No caso, o deputado uniu o útil ao agradável, e isso deu samba – Veja os dois aí felizes na foto, comemorando – a mangueirinha da sorte que virou mangueirão, olhando lá de cima seu salvador e sorridente pai adotivo.

Gesto magnânimo, mas não saiu de graça por que é debaixo da generosa  mangueira da sorte que funciona a “sede” do Formigueiro; é lá que um monte de gente boa curte um churrasquinho, toma uma cervejinha e torce pelo Flamengo no melhor estilo sombra e água fresca…

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