CRÔNICA

BOM DIA, GENERAL!

O general Ivanhoé Gonçalves Martins, matogrossense de Cuibá, mais austero dos governadores mandados para o Amapá pela Revolução de 64, tinha lá seus suas manias e uma delas de inspecionar obras antes de ir ao palácio para as audiências de praxe. Um belo dia, cedinho, foi direto ao centro pra conversar com moradores da Praça Veiga Cabral.

Velho general estava interessado em tirar casas e árvores do meio da rua, implantar meio-fio, acabar com os becos, começar a modernização da cidade bem no ponto onde ela começou. Então mandou motorista do carro oficial estacionar diante do número 77 da Avenida General Gurjão e chamar o dono do imóvel, o comerciante Duca Serra, que veio atender o chamado do “Chefe do Executivo Amapaense”, no jargão dos primeiros locutores da Rádio Difusora de Macapá. O general foi curto e grosso:

 – Bom dia!

– Bom dia, general!   

 – É o dono da casa?           

 – Sim, governador, sou o dono da casa!

– O senhor vai ter que sair daqui!

– Como sair, governador?

– É preciso!A casa do senhor está fora do alinhamento!  

Foi aí que o velho Duca virou o jogo; pediu ao governador que fosse com ele ao lado da sua residência, de onde poderia constatar que havia espaço sobrando nos fundos do terreno; que assim poderia recuar a casa em que morava com sua família, bastando pra isso receber a indenização devida. O General Ivanhoé, investido de toda autoridade de governador da Revolução de 64, encarou aquele homem simples, coçou a cabeça, resmungou alguma coisa, entrou no carro oficial e foi embora.

 No dia seguinte mandou chamar todos os proprietários de imóveis que deveriam ser destruídos e mandou o Diretor de Obras checar o valor de cada indenização; semanas depois pagou quem deveria pagar e iniciou a modernização do centro de Macapá. Os moradores que não possuíam espaço pra recuar seus imóveis foram retirados do meio da rua e seus proprietários mudaram para outros bairros, e os que poderiam recuar, recuaram.

 A velha casa dos Picanço e Silva- feita de enchimento- veio abaixo, dando lugar à outra em alvenaria, feita no alinhamento ali ao lado do Teatro das Bacabeiras, onde está até hoje. Não é orgulho de filho besta, mas imagino o seguinte: fosse o velho Duca um homem fraco não teria resistido a imposição inicial do governador – botas reluzentes, rebenque em uma das mãos.

Ato contínuo, tratando-o por “excelência”, ou de “meu governador”, como fazem bajuladores de ontem e de hoje, teria perguntado quando e pra aonde o general queria que se mudasse com a mulher e sua prole.

 A coragem de um homem simples, mas consciente dos seus direitos de cidadão do Território Federal do Amapá acabou protagonizando pequena, mas bela lição de cidadania, depois reconhecida pelo próprio governador, que podia tudo e mais alguma coisa. E o que mais é preciso lembrar?

 Acho que o fato de que corriam os chamados anos de chumbo, uma das marcas da Revolução de 64, quando era preciso ter aquilo roxo para impor uma derrota mesmo que civilizada a um general governador, substituído por outros que tiveram mais poder ainda com a vigência do nefasto AI-5, que suspendeu as liberdades democráticas, estabeleceu a censura e impôs uma ruma de coisas ruins ao povo brasileiro.

 Portanto, se quisesse o governador poderia, sim, ter determinado a saída não só de um, mas de todos os outros moradores cujos imóveis impediam a modernização do centro de Macapá, e pronto! Mas foi colocando à prova, uma a uma, as atitudes do governador na relação com seus governados que a vida foi revelando o caráter, o senso de justiça daquele cuiabano super exigente!

Foi assim que os amapaenses descobriram que o general Ivanhoé era durão, mas não era injusto, como poderia parecer. Como o tempo passa, e lá se vão mais de 50 anos que o General Ivanhoé Martinspassou por aqui [até já subiu pro andar de cima], é bom lembrar que depois da sua administração outros governadores continuaram o trabalho e a cidade ficou mais bonita.

Foi construida a biblioteca pública, surgiram as alamedas Francisco Serrano, Isaac Alcolumbre, a Avenida Padre Júlio foi urbanizada até a Rua Leopoldo Machado, a General Gurjão e a São José ficaram mais largas, foram asfaltadas, deram novo aspecto ao centro de Macapá.

Quanto ao velho Duca Serra, está aí vivinho da silva (ele é Silva, desculpem a redundância), chega aos 94 carnavais nesta segunda-feira, dia 20/03/2006, amado, cercado pelo carinho da família e dos amigos, continua morando no mesmo lugar, de onde só saiu com sua morte, em outubro de 2008!

A exemplo de muitos amapaenses da sua geração, o velho Duca considerava Ivanhoé Gonçalves Martins, dentre os governadores da Revolução de 64, o mais justo, o mais honesto, e o que mais trabalhou pelo Amapá.

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2 Respostas para “CRÔNICA

  1. Quem usava botas era o General Luis Mendes da Silva, 1º militar da cota de governadores do golpe de 64, a governar o TFA . Não só usava botas como batia nervosamente nelas com um rebenque que usava costumeiramente, achando, talvez, que estava numa estrebaria.

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