CRÔNICA

ÚLTIMO HIPPIE DE MACAPÁ

 João Silva

Filhos daquela cidade bucólica, cujas casas atravessavam a noite e a madrugada de janelas abertas; habitantes como eu daquela Macapá provinciana e boa de viver vão tendo aos poucos, ou de supetão mesmo, de conviver com os ares de uma metrópole que, ao que tudo indica, chegou trazendo seus arranha-céus e tudo mais.

Quando se trata de relembrar lugar que percorri de pés descalços ou dentro de calçados pouperrimos, claro que eu e meus amigos viajávamos de volta para algum ponto além dos 50 anos atrás, já que o caminho da conversa passa por dentro da nossa infância  vivida nos campinhos da Praça da Matriz.

Meu Deus, o jogo de bola, o banho de rio, as escaramuças entre moleques do Centro e do Bairro Alto em noite de São João! Que dizer do encanto das mocinhas donzelas – rostos escondidos sob os véus das Filhas de Maria! Há quem lembre das gazetas, do primeiro beijo, do primeiro filme, da primeira paixão.

Fato é que nós, inocentes filhos de Macapá, não imaginávamos em nossos encontros no Cruzeiro, à boca da noite, em frente à Catedral, ali onde o futuro cochilava na rotina dos dias sempre iguais, que a cidade iria, assim tão de repente, virar essa babel que está ai.

Gente de todo lugar, de toda cor, de todos os credos, de todas as classes sociais; carros, ônibus lotados dos filhos de Deus em comboio circulando por onde havia ponte e aningal; poluição, violência, droga, crime,assalto à mão armada; lixo, ruas esburacadas, praças abandonadas, gente pedindo dinheiro, remédio, comida, emprego, roupa, sapato, casa pra morar.

Triste paisagem de migrantes, mundaréu de desempregados que foi chegando e foi ficando, exigindo investimentos que não são feitos ou quando feitos não fora o suficiente para atender a demanda que essa gente nos impõe, comprometendo a já comprometida estrutura de muitos anos de negligência.   

É que viramos Estado, os políticos se deram bem, a cidade ficou inchada de tipos pra lá de exóticos, maltrapilhos, mal encarados, gente que não circulava no paraíso da economia do contra cheque, habitado por uma população de barnabés felizes e suas famílias bem assistidas pelo governo.

Nada a ver com a cidade romântica e povo cheio de abusões em que este escriba viveu melhores dias do seu tempo de menino, mas sim com a migração descontrolada que trouxe para estas bandas o último hippie de Macapá, com advento da Zona de Livre Comércio, sujeito que sumiu do jeito que surgiu, assim tão de repente, do nada…

Era um tipo alto, andarilho, olhar altivo, pernas cumpridas, passos largos, elegantes, sempre mesma miséria de roupa colada ao corpo levando mochila presa às costas e a boca fechada à curiosidade dos passantes. Despertava atenção, sim, senhor, porque era um transeunte com pressa de chegar a um lugar que na verdade não era lugar nenhum.

Não tinha nome, não esmolava, não incomodava; quem era, então, aquele andarilho da minha cidade e que o atormentava, se algo o atormentava? Era um poeta que resolveu morar na rua, dormir na praça, despertar ao som do o chilrear dos pardais dispersos, com a música das marés do Amazonas? Talvez sim, talvez não.

Sobre tipo estranho, tia América, uma das cinco que Deus me deu e ainda não levou, vem logo abrindo o verbo: “Acho que esse homem carrega algum sofrimento que não quer dividir com ninguém e então resolveu correr chão”. Categórica, convenhamos, mas persiste a dúvida: e se não houver ferida sangrando no peito daquele filho de Deus?

Minha amiga Alice Gorda, mediúnica, mete sua colher enferrujada: “Sofrimento não acredito, muito menos que se trate de alguém de outro planeta: é um visitante deslumbrado que resolveu morar na rua, dormir na praça, ouvindo, vendo estrelas, e daí?”.

Então vou procurar o mestre Raimundo Lobo, cheio de sabedoria, filosofando com entusiasmo dos bons tempos do Colégio Amapaense e o questiono sobre aquele homem apressado na paisagem de Macapá: “É um filho de Deus e a pressa, Picanço, é apenas afobação de alguém que não pode chegar atrasado para o espetáculo do pôr-do-sol na Lagoa dos Índios”.

Mistérios e abusões resistindo ao ano 2000, lá vou eu ao coração da Favela, colher parecer de um macapaense ilustre e um olhar centenário sobre nossa cidade; falo do mestre Zacharias, o “Tio Zacha”, que foi tocador de clarinete na Banda do Padre Júlio na década de 20, quando nem existia o Território do Amapá.

Daí é que não se fez de rogado: lavrou seu parecer e tacou carimbo embaixo para que não se alegasse ignorância: “Já vi esse homem zanzando em toda parte; certamente não é uma alma penada, não tem maldade no coração; também não é um São Francisco de Assis reencarnado. É apenas alguém que Macapá encantou para sempre”.

Com todo respeito, mas “para sempre” não amado mestre…Algum tempo depois do depoimento do Tio Zacha, sem deixar rastro, sem lenço, sem documento, em silêncio como vivera entre nós, o último hippie de Macapá escafedeu-se, sumiu no meio do nada de onde um dia apareceu…

 

 

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2 Respostas para “CRÔNICA

  1. Grande cronista. Aquela nossa Macapa de outrora não existe mais. Deixou saudades…Pra completar, um certo governador (não recordo quem, na verdade) colocou por terra toda a nossa memoria fisica qdo mandou derrubar as casas antigas do centro da cidade. Pior, recentemente, na administração do Gov Pedro Paulo, não sei quem foi que promoveu uma reforma no entorno da residência governamental, so sei que arrancaram uma das ultimas torneiras publicas existentes. So existe uma agora: no canto do Barão e ja esta quase pela metade de tanta calçada que construiram no pé dela. Macapa esta não apenas uma Babel. Macapa esta uma verdadeira zona! Culpa de quem escolheu certos politicos que estao ai conduzindo nossos destinos, sejam eles amapaenses ou paraquedistas. Enquanto existir o voto obrigatorio quem barganha seu voto continuara a barganhar; enquanto se liberar dinheiro para sustentar campanhas politicas a situação não vai mudar. Precisamos de reformas urgentes na legislação. um abç

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